Pequena grande diferença
Estamos em Bogotá, Colômbia, para conhecer um pouco do que Deus está fazendo nessa grande e bonita capital. O pastor Libni e sua esposa Natalia nos contam sobre um dos ministérios da Igreja Metodista Livre, chamado no dia a dia da Igreja de Lar das Meninas. Ele é o local de acolhimento de doze crianças que passaram por situações sociais e familiares limítrofes.
O Lar é fruto de um período de evangelização em um dos bairros mais carentes da cidade. No contato com a realidade crua por que passam algumas famílias, nasceu o sentimento de que algo deveria ser feito.
Naquela época, Jacob Grady, um jovem recém formado de 24 anos, estava oferecendo a Deus dois anos de sua vida em trabalho missionário na Colômbia. Sabendo da visão e da necessidade de fazer algo por aquelas meninas, dispôs-se a levantar fundos para o aluguel de um local e para parte das despesas mensais.
Os outros gastos foram assumidos pela igreja. Todo o trabalho de cuidado das crianças é feito de maneira voluntária. Entre cozinheiras, cuidadoras, recreacionistas, assistentes pedagógicos, médicos, psicólogos, cinqüenta pessoas da Igreja dão o que têm de seu tempo disponível para as crianças. Alguns disponibilizam um dia por quinzena, outros dão mais tempo. Dona Ruth Ramirez fica o dia inteiro no lar.
Uma grande porta de ferro separa o barulho da avenida da construção acolhedora. Entro com meu coração vigilante para que tenha uma atitude de profundo respeito e consideração por quem já teve feridas profundas e necessidades básicas negadas o suficiente em sua breve e por demais demorada história.
Como que descendo de árvores surgindo do nada, uma, e outra, e outra menina se aproximam curiosas. “Você nasceu onde? Qual é seu nome? Quantos anos tem?” Duas mãozinhas me puxam insistentes para que eu vá “arriba”. Querem mostrar seus quartos, limpos e arrumados, com seus nomes em suas camas. Abraços e beijos são a comunicação preferida para expressar o que talvez não tenham recebido num período crucial de suas vidas.
As marcas de um passado doloroso não se apagam de maneira fácil. Sua pele e cabelos me parecem sinalizar que a recuperação física ainda está em andamento. Seus olhos e tons de voz fazem uma combinação inusitada de vivacidade típica da idade com uma certa opacidade no olhar. A tristeza escondida da voz me fazem temer que ainda existe um longo processo de cura interior.
Mas também percebo confiança nas pessoas que as visitam e obediência tranquila aos que têm responsabilidade sobre elas. Elas vivem e respiram amor nesta sua nova casa.
Saio da casa querendo não sair. Não porque tenho uma crise passageira de pena filantrópica, mas porque sinto que dentro daquela casa existe algo importante sendo realizado e onde a presença e atuação de Deus se fazem sentir.
De volta ao contato com o barulho mecânico da cidade grande, lembro de um vídeo que assisti há algum tempo. O rapaz está na orla de uma praia cheia de conchas, trazidas pela maré alta. Ele as joga, uma a uma, de volta ao mar e à vida. Um homem o observa e comenta, prático:
“Veja a areia da praia. Ela continua repleta de conchas. Não vê que seu esforço não mudou muita coisa?”
O rapaz ouve de maneira atenta, e depois de um segundo de reflexão, pega outra concha da praia e a lança ao mar. E diz:
“Para esta, muita coisa mudou”. E continua a lançar, uma a uma, as conchas de volta ao mar.
As necessidades sociais da cidade de Bogotá continuam imensas. Crianças assistem ao assassinato de seus pais, sofrem abuso sexual daqueles que deveriam ser seus guardiões protetores, passam fome e frio, não têm em suas casas um ambiente que se pode chamar de lar.
E não é por causa da existência deste pequeno trabalho da Igreja Metodista Livre que os dados estatísticos de violência ao menor em Bogotá serão alterados de maneira substancial.
Mas para estas doze crianças que conheci, porque uma igreja olhou para elas, a vida foi transformada de maneira radical, fazendo uma enorme e definitiva diferença.



