Acima e abaixo da superfície
Pleno verão no Japão, calor que faz pensar que ar condicionado é item essencial para sobrevivência. Ainda bem que existem os sucos, chás, bebidas isotônicas, todas geladíssimas e saborosas.
Depois de visitas seguidas ao país, já não me sinto inseguro para encarar as atendentes das lojas. Falo meu pobre inglês, elas não entendem, dão as mesmas respostas várias vezes em japonês, sem mudança nem de vocábulos, mas no final a comunicação acontece. Difícil é assimilar palavras novas ao meu vocabulário de neto de japoneses de antes da guerra: “purá”, que em português é purástico e teiburu, que em alguma outra língua é table. And so on…
Confusão por confusão, pior é quando se vem do México, vivendo quatro dias de imersão na língua. No primeiro dia de estada no Japão, em passeio com os filhos do missionário, estamos no Maku Donarudo (para quem adivinhar que loja é, vou de carro até lá e pego um seto no duraivu suru). Olho o cardápio afixado no alto e sinalizo com a mão o número desejado.
As coisas começam a complicar quando a atendente desfia perguntas sobre detalhes de como quero o lanche. Com isto? Com aquilo? Grande? Pequeno? No meio da conversa nem sei mais o que estou pedindo, e como meu japonês está por um fio, empezo a hablar em español.
No tráfego educado da rua, cruzo com quem poderia ser minha bisavó, e meu tio, e primo, e irmão. No supermercado, fico frente a frente com uma senhora que talvez já tenha esquecido que foi moça um dia. Ela tem dificuldade para andar, mas no corredor estreito que me liga a ela, não tem dúvidas de quem tem a preferência: prossegue resoluta, sem estacar, confiante de que os valores da cultura protegem sua fase de vida.
Problemas na máquina de lavar do hotel, que funciona com moedas. Coloco duas vezes, e nada acontece. Chamo uma funcionária, e depois de verificar a existência de um problema, pergunta quanto coloquei de dinheiro. 400 ienes, digo, o dobro do valor do funcionamento. Sem hesitar, ela saca de seu bolso as moedas, e depois de pedir desculpas pelo incômodo, me indica outro andar onde há outra máquina. Questão de confiança na palavra.
Na loja, uma dúvida quanto a mala que precisamos comprar. Não sabemos se o que queremos ultrapassa as medidas autorizadas para uma bagagem de mão. Vamos perguntar à atendente? Talvez não vá adiantar porque estamos no interior. Na ausência de outra bóia de socorro, nos dirigimos a ela. Depois de ouvir de maneira atenta, pega um manual (existe sempre um manual debaixo de todo balcão de loja) e nos dá uma explicação detalhada de que a permissão se dá por área cúbica e não por metro quadrado, como imaginávamos. Em seguida, se dirige à prateleira de malas e nos explica que esta mala está dentro do padrão, e aquela não, mas a outra, caso o vôo não esteja tão cheio, pode ter a chance de passar. Isto é, suas medidas são guiri guiri. Dois minutos de explicação, nem uma palavra desperdiçada, todas as informações que precisamos.
Nas escolas é oferecida uma série de atividades extra-curriculares, com objetivo de descobrir interesses e desenvolver habilidades pessoais. Em determinada fase, faz-se visitas a empresas, quando o aluno confere in loco se seu desejo profissional corresponde à realidade do mundo do trabalho. Aqui, a escola púbica funciona, e não é por culpa da classe média.
Ando pelas ruas desta cidade que parece ter se esquecido de caminhar no tempo e vejo templos. Grandes, desproporcionais em relação às pequenas construções padrão das residências e prédios comerciais. Os sinos, de cor apagada pelo tempo, ainda assim são imponentes, como que, do alto de onde estão, vigiassem seus arredores, lançando com seus sons imóveis um manto nebuloso de poder sobre as pessoas. São séculos de influência e entranhamento na vida das pessoas, a cultura fazendo simbiose com a religião, moldando a identidade do que é ser um japonês, para o bem e para o mal.
Todo dia o noticiário da TV faz manchete sobre algum caso que foge do comportamento padrão esperado dos cidadãos. Casos de assassinato (geralmente com faca), estupros, roubos. A notícia do momento é sobre uma famosa atriz, descoberta por ser usuária de drogas pesadas com suspeita de também ser traficante. Os suicídios, uma das primeiras causas de morte aqui, não dão mais notícia. Abaixo da superfície tranqüila de uma sociedade que funciona de maneira adequada, talvez haja um turbilhão de necessidades que vez ou outra emerge e estoura como lava de um vulcão.
Confiro dados estatísticos sobre a presença evangélica no Japão, depois de cento e cinquenta anos de missões protestantes no país. A estimativa é de que a população evangélica é de 0,4%. Em Echizen, na cidade que estou, existem duas Igrejas evangélicas, com cerca de 80 membros no total. Isto significa que de cada 100 habitantes, apenas um conhece o Senhor.
Campos brancos, existem por todo o mundo. Campos devastados pela fome, pobreza, corrupção, violação de direitos humanos, opressão a mulheres e crianças. Situações extremas onde a miséria faz dança macabra com a corrupção e baixa escolaridade.
Mas há outros campos também brancos, mas nem sempre perceptíveis. Como um campo de arroz em período inicial de plantio, quando o que se vê é somente água, eles estão lá, submersos em seus problemas insolúveis, quietos, aparentemente prósperos e felizes, sem necessidade de coisa alguma, mas se dirigindo a passos silenciosos e ordenados em direção a um terrível destino eterno.
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Willians disse,
13 de Agosto de 2009 @ 17:29
Eu descobri o que é Maku Donarudo. Qual é o prêmio?