Taifu e dishin
Nas duas semanas que passo em Ichihara e Takefu, uma visão mais clara e tocante do que passa com os brasileiros em geral e de como Deus está trabalhando em nossas Igrejas.
Viver em um país estrangeiro nunca é fácil. É exercício de humildade e renúncia, para que se consiga adaptar a uma maneira de pensar diferente. No ar, sempre alguma incerteza sobre o procedimento correto de se fazer as coisas (porque aqui tudo tem uma maneira orientada de se fazer), mesmo que com muitos anos de vivência no país. Porque instruções há, muitas, para todas as coisas, mas em letras e ideogramas nem sempre identificáveis para os brasileiros.
Em um país onde tudo funciona de maneira adequada, há conforto e segurança, mas existe o outro lado, por dentro das paredes do local de trabalho. Há as terríveis viradas de turno, que afetam o sono e o corpo de maneira dramática, os riscos sempre presentes de acidentes graves, o ambiente castigante de altas temperaturas, mesmo com roupas especiais, em alguns serviços.
Mas há uma outra história sendo construída dentro de nossas Igrejas. Casamentos prestes a se desmoronar sendo restaurados, famílias em fragmentos sendo reunidas. Na Igreja, o encontro de um lar, um abrigo em meio à paisagem desoladora e solitária de país que oferece quase tudo, menos amor e sentido de existência.
No meio da crise econômica que ameaça até os empregos de alguns japoneses, uma percepção de necessidade: um novo espaço para a Igreja, um local de culto, convivência e serviço à comunidade. Quase o dobro do valor anteriormente pago. Um desafio de fé: homens usam seu dia de folga para estar, em regime de mutirão, participando da reforma do local. Mulheres fazem salgados brasileiros e ficam com seus filhos vendendo à porta das fábricas até à noite. O lucro total, uma oferta de amor para a Igreja. Até uma empresa elas criam: “Por amor (a Ti, Senhor)”. Por amor Àquele que os amou primeiro.
Dia de batismo. Cinco adolescentes dão seu testemunho, longo, denso e focado em Jesus. Brincadeiras fazem parte de uma vida saudável, mas o compromisso é sério como de uma pessoa madura.
Nos cultos, uma reverência respeitosa e uma sinceridade de ouvir de coração o que Deus quer de suas vidas. Não um jogo de interesses, onde se vai à Igreja para barganhar, mas a consciência de que Ele está no comando, e que submissão e entrega são marcas de um verdadeiro discípulo de Jesus.
Também o entorno não deixa de ser influenciado. Evangelismo de maneira natural, como estilo de vida, ao companheiro de fábrica, à família, com o argumento da consistência de vida. E o brasileiro, mas também o japonês, entende e é convencido de que Deus está com eles. Neste ano, dois japoneses chegaram a Jesus. Quem sabe o início de uma grande colheita em lugar ainda deserto.
Quando se está no Japão logo se ouve duas palavras importantes no cotidiano desta ilha de condições ambientais difíceis: dishin (terremoto) e taifu (tufão). Há poucos dias houve um nas imediações de Tóquio, mas estamos longe o suficiente para não sentir nada. Mesmo o tufão que assola parte do Japão só se fez sentir aqui como uma chuva constante e de pingos grossos, embora sem vento e fraca.
Mas vi e senti outro, o verdadeiro tufão e terremoto, o do bem, que é obra de Deus nos corações dos homens. Ele está em progresso, e talvez ainda em início de atividade. Isto me faz ter um profundo respeito por aquilo que Deus está fazendo no Japão. Não tem como não participar!
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