Encantos do Peru
As paredes em variados tons de marrom do aeroporto me dão uma sensação confortante neste país que visito pela primeira vez. Os painéis de propaganda mostram lugares peculiares, exuberantes à vista, que instigam a curiosidade para um mundo antigo e misterioso. Existe muita história neste espaço de terra que foi, antes e durante a ocupação espanhola, um dos centros regionais do continente.
Nas tramas dos tecidos artesanais encontrados nas lojas típicas, uma explosão harmoniosa de cores da tradição indígena. Os incas, me dizem, tinham o arco-íris como referencial de suas pinturas. “Quem sabe?”, filosofo enquanto trafego entre as mercadorias artesanais de suspeito padrão uniforme em cores e qualidade. Uma consultoria mercadológica bem feita pode ajudar a polir e, se necessário, atualizar um tesouro arqueológico.
O país é a reunião de pequenos mundos distintos. A começar pela geografia: em curta extensão, íngremes contrastes entre a costa, as montanhas e a selva. Lima, nosso destino único nesta viagem de três dias, situa-se à beira mar, bordeada a poucos minutos de avião pelos Andes, que se precipitam para dar lugar para as terras baixas da bacia do Amazonas.
Em cada limite geográfico, grupos de gente das mais diversas, com costumes e culturas distintas. É o que me explica Maria, a esposa do pastor Miguel, enquanto contemplamos na loja o painel de pequenos quadros pintados à mão. São rostos de meninas, cada um com seu traje e traços peculiares, formando um mosaico colorido de um povo todo chamado peruano.
No passeio rápido pela culinária local, o lomo saltado, uma co-autoria surpreendente entre a cozinha criolla e chinesa, datada do século XIX, resultando no tempo certo de cozimento de ingredientes triviais.
Especial é o ceviche, peixe branco marinado com lima, um tipo de limão peruano de acento forte. O reconhecimento mundial recente que a cozinha peruana tem tido é meritório. Mesmo uma despretensiosa empanada de carne vendida no balcão do aeroporto pode atestar que o bom gosto e a sensibilidade do tempero não são de alguns poucos gênios da cozinha, mas vêm das bases do povo.Passando de carro pelo centro velho, indo para uma igreja situada na periferia norte da cidade comprida que se esgueira espremida entre a costa e as montanhas, sob a luz fraca do nunca visto, sou observado com atenção por uma fila de construções seculares, antigos imponentes monumentos do que foi o mais importante dos três centros do império espanhol na América. O tempo, o uso e o vento gravam em seu semblante profundas rugas de experiência. O entulho e o lixo acumulados nas ruas decrépitas formam o entorno de uma pintura antiga, em necessidade urgente de restauração.
Na pequena igreja, escondida entre casas indistintas, os instrumentistas se preparam para o louvor do culto. Um som alto e contemporâneo sai das caixas estridentes e da bateria energizada por jovens cheios de entusiasmo. Depois de séculos de opressão religiosa, o Evangelho se apresenta em roupagens atraentes para a geração do futuro. No culto, a maioria são jovens recém convertidos, dispostos a fazer uma nova história em suas vidas.
Na conversa com o casal Gary e Patricia Cruce, missionários americanos, ouço uma análise que me serve como insight para me ajudar a compreender os sinais que percebo no país. O Peru quer mudar, e por isso não tem preconceitos ou resistência para quem se dispõe a indicar um caminho, qualquer que seja ele. Este é o tempo do Evangelho no Peru, e essa é a razão de eles estarem no país. Não como alguém que está no palco, mas como suporte e referência, como pais, ou irmãos mais velhos, para que surja uma geração de bons cristãos e que forjem, a partir do conhecimento da história Metodista Livre, sua identidade como Igreja no Peru.
Da esquerda para a direita: Gary, Patricia, Maria, Miguel
O pastor Miguel, de mudança recente, vindo de Tarma, a poucos quilômetros e a muitas horas de Lima, subindo e descendo a cordilheira dos Andes, me conta um pouco de sua história.
Na infância, levado pelos pais, passava as férias na capital, na casa de parentes. Seus primos, educados na capital, achavam rústicos seus modos e jeito de falar. “Ele é da selva, hahaha”. Por isso, à parte do período de estudos no Seminário, procurava se manter distante daquela imensa selva humana.
No ano passado foi convidado para mostrar a cidade a alguns irmãos dos Estados Unidos. Foram a um monte alto, de onde se divisava grande parte da cidade. De lá, sentiu a cidade como uma multidão de ovelhas dispersas. A aversão se transformou em atração, e a mágoa da experiência do passado se tornou em perdão e paixão.
Há dois meses ele e sua esposa começaram uma Igreja num bairro central de Lima.
Mas eles vivem em um pequeno quarto alugado de um imóvel. Compartilham banheiro e cozinha com outras famílias. Não possuem plano de saúde particular e nem do governo, e também não fazem nenhum tipo de aporte financeiro como previsão para a aposentadoria. Vivem o dia de hoje no serviço do Senhor, com alegria.
Tomo o avião carregado de lembranças. Poucas na mala, mas muitas no coração. O país, pilhado pela colonização, explorado em seus recursos minerais, dizimado em sua população, como fênix, tem desejo de emergir. O que trazem do passado não é um ranço magoado por aqueles que os oprimiram, mas o orgulho de imemoráveis tempos de riqueza e glória, que serve de impulso para um novo tempo de prosperidade, agora em novas roupagens. Este é o tempo do Peru. Esta é a oportunidade de transformação de uma nação através do Evangelho.
Veja mais fotos e vídeo do Peru em
http://picasaweb.google.com/marcelo.imel/Peru?authkey=Gv1sRgCO2AsuTzpcbPcw&feat=email#5392821979215281362
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