Sonhos bogotanos
O louvor corre solto ao ritmo característico da cumbia. Duas meninas se postam à frente da congregação, expressando em dança sentimentos de adoração. Uma bandeira de Israel é agitada por uma senhora no meio do povo. Alguns fecham os olhos, reverentes, outros levantam as mãos, como se procurassem alcançar o teto alto da Igreja. O pastor Libni, sempre comedido, se move discreto, sintonizado com o ritmo envolvente. Natalia, sua esposa e também pastora, dirige o louvor com seu jeito expansivo e contagiante. Estamos perto do céu, penso. Ou quem sabe Deus está perto de nós aqui, na Igreja Metodista Livre de Bogotá.
Nos três dias que ficamos na cidade, entre vistas da cidade de 2640 metros e passeios na parte histórica da cidade, coração administrativo e depositário fiel da cultura e arte do país, o pastor me conta sua história de ministério, que se mescla com a história da Igreja.
Recém chegado do Brasil, onde foi estudar teologia, vê as portas da Igreja que congrega se fechando de maneira inesperada, depois de um início de ministério promissor. Nos meses seguintes, quando considera com Deus o que fazer, recebe um convite para começar um trabalho Metodista Livre. É o sinal que espera para continuar no ministério.
Não há promessa de sustento nem de acompanhamento ministerial. Para se manter, dirige um táxi e faz um trato com Deus: estipula um valor diário que precisa ganhar para se manter, e quando atinge este valor, deixa o táxi e vai pregar o Evangelho.
Somente depois de um ano recebe outra ligação: “E então, está pregando o Evangelho?” “Sim, e há frutos”. Assim começa a Igreja Metodista Livre na Colômbia, denominada “Movimiento de Plenitud Cristiana”.
Doze anos passados de sua fundação oficial, a Igreja de cerca de 300 membros está em fase de maturidade.
Enquanto tomo um chocolate saboroso na sua acolhedora casa, pergunto se existem desafios ministeriais fora da Igreja estabelecida. “São muitos os sonhos”, diz o pastor, e percebo que nessa ênfase existe mais do que metáforas. Estão sustentando um pastor designado no trabalho iniciante de Barrancabermeja, uma cidade em desenvolvimento. O Lar das Meninas, um trabalho de resgate social, caiu no colo da Igreja, que não o recusou. Existe ainda a consolidação do trabalho na Igreja, que está em fase de desenvolvimento próprio. “Mas de todos os desafios, o que te move de maneira mais intensa?” Ele suspira, e confessa: “nossa meta é começar outra Igreja em Bogotá ainda em 2010. É nisso que está meu esforço e paixão”.
Enquanto espero a chamada para o embarque, faço rápido as contas na cabeça. Várias frentes de trabalho, imensos desafios a serem alcançados. No passado, por causa das despesas iniciais de construção, a equipe ministerial ficou durante um tempo sem salário fixo mensal, dependendo somente de ofertas ocasionais. Agora a Igreja está estabelecida, mas eles não param de sonhar. E os recursos que dispõem são gritantemente menores do que os desafios.
Faço um recall das imagens e sensações da bandeja paisa, prato típico colombiano da região onde nasceu Natalia, que provamos no almoço de domingo. Entre outros ingredientes, sopa, feijão, arroz, ovo, abacate, torresmo, farofa, carne, morcilla, lingüiça, banana, batata e arepa, uma espécie de pão à base de milho, tudo servido em um grande prato, chamado propriamente de “bandeja”. A refeição naquele dia aconteceu tarde, depois do culto, e por isso, estava disposto a encarar uma comida consistente. Mas mesmo com muita fome não consegui terminar o prato que me ofereceram: era abundância demais.
Nesta lembrança ganho encorajamento. A necessidade é imensa, mas Deus é especialista em suprir cada uma de nossas necessidades. O Deus da bandeja paisa!
Para conferir mais fotos e vídeos sobre a Igreja e a cidade, acesse:
http://picasaweb.google.com/marcelo.imel/Colombia?authkey=Gv1sRgCJXL9OSv7M27DQ#
Permalink Enviar por e-mail. Hits para esta publicação: 108.